Artigo: Confiança é fundamental

Por: Henrique Morgantini

As diferenças entre a gestão de empresas e a administração pública são abissais. Já não é tão novo o discurso de novos políticos que, para se cacifar diante do eleitor mais desatento, prometem dar à gestão pública o mesmo perfil que dão/dariam a empresas.

Além de ser legalmente impossível, a ocorrência disto significaria um desvio de função das duas atividades: uma empresa visa o lucro, a gestão pública tem como finalidade maior a divisão da arrecadação em forma de ações – sejam obras ou programas – que promovam a elevação da qualidade de vida da população. Uma gestão não tem de gerar lucro, tem de gerar cidadania.

Mesmo assim, ainda há no mito social brasileiro a ideia de que empresários são competentes em gerir estruturas políticas. É o mesmo mito que está inserido no brasileiro de que riqueza financeira é sinônimo de sucesso, boa formação social e educacional e até mesmo integridade de caráter.

A moda, como disse, é antiga, mas volta e meia vem à tona. A última vez que se tornou decisiva não foi em 2016, como muitos podem afirmar. O efeito “João Dória” pelo Brasil afora se deu muito mais por ser alguém supostamente “apolítico” que propriamente por se revestir como um grande administrador.

O prefeito de São Paulo é um exímio marqueteiro pessoal e vem fazendo isto há décadas para escalar o caminho do sucesso na sua vida pública como empresário e comunicador. O mesmo – só que exponencialmente melhor – vem fazendo Silvio Santos e nem por isto o lendário apresentador brasileiro torna-se qualificado para ser um gestor da máquina pública. O ensaio de sua candidatura frustrada nas eleições de 1989 mostra o quanto este tipo de movimento serve como termômetro do quanto estávamos perdidos politicamente. O resultado daquela eleição foi Fernando Collor.

A aparição de um empresário como solução na Política é o sinal do caos.

O sucesso dele numa eleição é a comprovação deste caos.

Mas nem tudo são diferenças entre os dois universos. O mundo empresarial e o ambiente público se coincidem em vários outros pontos. São questões, obviamente, periféricas que remetem muito mais a uma conduta de comportamentos adequados do que uma finalidade similar.

E um deles é bastante claro. Ele versa sobre a valorização de sua equipe.

Empresários, executivos, diretores de grandes instituições e políticos de todas as grandezas sabem que uma das características do Líder – e que o tornam de fato um Líder – é saber confiar nos homens e mulheres que tem à sua volta. Sejam profissionais do setor privado ou servidores de carreira ou comissionados, é fundamental ter confiança na capacidade de cada um, na disposição para o acerto e o sucesso que cada um cede de si mesmo para aquele projeto.

Seja no meio público ou no privado, determinados cargos demandam a abnegação e a dedicação em tempo integral, abrindo mão do lazer, do tempo com os filhos, com os amigos, com a família, com a esposa ou o marido. Não há sucesso numa estrutura como uma cidade ou uma empresa sem estas características.

E é, portanto, missão do Líder motivar, exaltar, incentivar, encorajar, orientar e, sobretudo, confiar na qualificação e capacidade de sua equipe.

Desta forma, soa infeliz e de péssimo senso de liderança a afirmação do prefeito de Anápolis, Roberto Naves, em relação à formação da sua própria equipe. Instado a fazer uma análise de seu grupo pelo radialista Nilton Pereira, na Rádio São Francisco, na última semana, o chefe do Executivo anapolino lamentou não ter mais recursos disponíveis para a contratação de bons profissionais.

“Nossa equipe está formada. Seria bom se pudéssemos trazer nomes de peso na área de administração pública, vindos do TCU (Tribunal de Contas da União), por exemplo, mas nas condições que nós temos, montamos uma equipe qualificada”, disse o prefeito.

O líder, convocado a falar de sua equipe, optou por celebrar ausências.

Ao invés de comemorar a união de um grupo político, preferiu realçar em cores fortes o que falta à equipe. Está boa, mas se tivesse dinheiro, não seriam estes, mas os melhores “do TCU”.

É preciso que se faça uma defesa do grupo que aí está. Se o prefeito Roberto Naves, na condição de líder não é capaz de fazê-lo, que se registre aqui a qualidade dos nomes escolhidos. Em primeiro lugar, são anapolinos em sua maioria com larga convivência na cidade e com atividades enraizadas no município. Não são, em sua grande parte, aventureiros vindos de um tribunal de contas, ou de qualquer outra autarquia para inventar a roda em Anápolis.

Além disto, é fundamental frisar que vários nomes que foram escolhidos “nas condições que temos” vem de administrações de comprovado lastro de sucesso administrativo e político. Afinal, alguns dos quadros escolhidos para o primeiro escalão da gestão Roberto Naves fizeram parte, por exemplo, de gestões como a de Antônio Gomide que, em 2012, obteve 88,9% dos votos válidos.

A força de Gomide evidenciada no resultado eleitoral certamente foi construída a partir do trabalho de sua equipe. E grande parte dos nomes que contribuíram para este sucesso estão – novamente – tendo a chance de contribuir com seus talentos, suas capacidades técnicas e suas disposições, forças de vontade e tudo o que mais sabem fazer de melhor.

Sendo assim, desmerecê-los é um desrespeito com suas capacidades.

Ao contrário de celebrar ausências, que sejam honrados estes nomes que já foram testados e mostraram sua capacidade. Se o prefeito Roberto Naves se sente constrangido em elogiar sua equipe, que seu grupo seja reconhecido e aplaudido, por serem anapolinos – de nascença ou de coração – que neste momento abrem mão de seus fins de semana e horas vagas para se dedicar à cidade e a todos nós.

Que tenham sucesso e que possam ser bem orientados.

Cabe ao Líder orientar, motivar e posicionar as peças adequadas para os lugares certos a fim de fazer a engrenagem andar nos trilhos. Talvez este seja o verdadeiro desafio a ser vencido agora em Anápolis.

E, para este, tanto no mundo empresarial quanto na esfera pública, não tem dinheiro que o forje. O Líder é esculpido, trabalhado aprimorado, mas jamais inventado a partir do sublime Nada.

 

 

Henrique Morgantini é jornalista e editor-geral de A Voz de Anápolis

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