Crônicas de um amor doentio: Uma história que envolve machismo, ciúmes e morte

Informações exclusivas revelam o que ocorreu nos dias que antecederam à morte da professora de inglês Maira Gomes Vila Nova e do pintor industrial Márcio Rodrigues Borges, em um quarto de motel; fontes próximas à professora revelam que Márcio a perseguiu insistentemente, gerando dias de medo e angústia

Felipe Homsi

Poderia ser uma noite de amor como tantas outras daquele casal e mais tantas vividas em um quarto de motel, numa suíte temática. Mas aquele domingo, 8 de outubro de 2017, reservava um destino diferente e bastante trágico para Maira Gomes Vila Nova, 52, e Márcio Rodrigues Borges, 45. Não houve música, nem vinho, muito menos qualquer sedução típica de dois amantes. Na suíte temática do Motel Santorini havia de tudo, exceto sinais de amor, entrega e paixão.

A tese de um dos amigos mais próximos de Maira é que ela sequer gostaria de estar ali. Para o empresário Rober Alves de Oliveira, diretor do Colégio Objetivo Prime, onde Maira lecionava Inglês, ela foi coagida pelo ex-namorado a estar naquela suíte, onde teve seu fim. Maira – de acordo com as apurações iniciais da polícia – foi morta pelo ex-companheiro que, depois, cometeu suicídio. O fato foi descoberto na última segunda-feira (09) quando a polícia, a pedido da direção do motel, entrou na suíte que o casal estava há mais de 25 horas.

Momento em que o Instituto Médico Legal vistoriava o Motel Santorini (Foto: Reprodução TV Anhanguera)

Para o empresário, que por quase duas décadas conviveu com a professora, a tragédia ocorrida foi “anunciada” e “nunca fez tanto sentido”. Rober trouxe à tona a história do casal, que teve a chance de acompanhar de perto. No roteiro um clichê bem batido: a história de um homem que não aceita o fim de um relacionamento. Segundo Rober Alves, Márcio não aceitava o fim do relacionamento. Amor doentio? As palavras de Rober repudiam a ideia de “amor”. “Era um homem com uma paixão doentia, conforme foi presenciado por mim e por várias colegas da escola”, revela.

A querida professora Maira Gomes em foto com alunos: conhecida pelo carisma com estudantes

Segundo relatos de colegas de trabalho, Maira não era de levar assuntos da vida pessoal para o trabalho. Ao contrário: era uma dedicada – e querida – professora de alunos de 6º a 3º ano. “Em menos de seis meses, a Maira se fechou dentro de um relacionamento. Esse rapaz a sufocava. Ele entrou no Whatsapp dela, no Facebook dela”, conta Alves. Eles começaram o relacionamento em 2013. Ela o conheceu em uma “gôndola de batata”, dentro de um supermercado.

O casal Maira e Márcio: do encontro em uma “gôngola de batatas” à tragédia no motel

Memórias

Após o fim do relacionamento, Maira classificava o ex com alguém de difícil convívio. “Ele era antissocial”, eram as palavras dela confidenciadas ao professor Rober sobre Márcio. Ela gostava de dançar, ele não. E esse perfil de Márcio levou Maira a se afastar dos amigos. Em 2016, eles terminaram três vezes o relacionamento. Nas primeiras vezes, ela alegou que queria “viver a vida” e que Márcio era “uma pessoa complicada”. Quando eles reataram pela quarta vez, Márcio prometeu a Maira que mudaria de comportamento e disse que havia tido uma “revelação”, feita por um pastor, de que essa seria a chance de “ser um homem melhor”. O mestre religioso o teria orientado a procurar Maira “uma última vez”, conforme uma fonte que preferiu não se identificar.

Maira gostava de dançar, Márcio não; em muitas fotos, ela aparece sozinha em festas e celebrações

Não satisfeito com toda a pressão e isolamento a que submetia Maira, Márcio afastou Maira da neta e de toda a família. “Ele proibia ela de tudo. Ele sabia os horários (dela)”, comentou sobre o fato de ele controlá-la em sua rotina. Foi aí que ela realmente resolveu se afastar dele. No Condomínio Residencial Gabriela, onde morava, Maira chegou a proibir Márcio de frequentar o local, há apenas 20 dias antes de ser morta pelo ex-namorado. De acordo com funcionários do condomínio, antes desse período, era comum ver Márcio no local. Foi ele, inclusive por intervenção de Maira, quem fez a última pintura naquele residencial. Ele tinha uma empresa no ramo de pintura industrial.

Vida Nova

O grau de conhecimento e envolvimento com a agenda da ex-namorada era tanto que no dia 03 de outubro, Márcio procurou a professora dentro da escola onde lecionava. “Uai, mas cadê a Maira?”, questionou Márcio Rodrigues Borges naquele dia, já dentro do colégio, momento em que Rober e demais professores e funcionários perceberam que a insistência não era normal e pressentiram que aquela perseguição poderia levar a um fim trágico. Maira tinha iniciado um novo curso, o de Pedagogia. Dizia aos amigos da escola que buscava uma “vida nova”.

Maira era muito querida pelas amigas; a imagem retrata o que ela mais gostava de fazer: “viver”

Mais tarde, quando ele retornou, Maira foi avisada por um colega que havia um homem à sua procura. A professora “desabou”, segundo o relato. “Esse homem está me perseguindo”, foram as palavras dela. “O intuito dele não era matar ela. O intuito dele era sequestrá-la, porque matar ele poderia ter matado naquele dia, porque ele estava estranho. A gente percebeu que tinha alguma coisa estranha”, avalia o professor Rober Alves.

Medo

Um dos professores ainda perguntou naquele dia se Maira gostaria que Márcio fosse mandado embora do local, mas ela recusou. Foi aí então que ele se dirigiu para a recepção da FAEL, instituição de ensino superior que pertence ao mesmo grupo do Objetivo e que funciona ao lado do colégio. Ela tinha começado o curso de Pedagogia nesta faculdade.

Testemunhas que trabalham no local contam que ele pediu à professora para conversar, mas ela, apavorada, se recusou, alegando que tinha outros compromissos e que não poderia fazê-lo naquele momento. Ela não queria mais. Vendo-a nervosa, Rober ofereceu para levá-la em casa. Ela não quis.

Foi aí que os conselhos começaram. A professora Maira, talvez pela personalidade bondosa, não conseguiu enxergar o risco que corria. Ela jamais aceitou a ideia de que corria risco, apesar dos inúmeros avisos de amigos. “Maira, esse rapaz é perigoso, ele está querendo fazer alguma coisa”, advertiu Rober. “Não, Rober, não tem esse perigo não. Ele está querendo voltar, mas eu não quero voltar”, ela respondeu.

Morte

Rober entende que, mesmo que alguém tivesse avisado a polícia, não seria possível evitar que Márcio matasse Maira. Em sua visão, além de matar a professora, ele se matou para que não fosse punido. “Ela tinha medo de contar para os meninos (filhos) dela”, continua. Nos últimos dias, Márcio começou a procurar parentes e amigos de Maira para tentar reatar a relação, mas ninguém deu ouvidos.

Professor Rober Alves, inconsolável, acredita que Maira tenha sido sequestrada por Márcio

A tese do diretor do Colégio Objetivo Prime de que houve um sequestro ganha força quando outras fontes, do condomínio onde ela morava, relataram seu paradeiro naquele domingo. Funcionários dizem que ela foi à feira. Uma vizinha da professora confirmou que esta era a rotina da professora. Maira saiu de casa por volta das 9 horas, sozinha, em seu carro, o Voyage vermelho encontrado na garagem de uma das cinco suítes temáticas do Motel Santorini, onde eles foram encontrados. “Ela estava correndo dele, ela estava com medo dele”, disse Rober, afirmando com veemência que ela não foi ao motel por vontade própria.

“Ele estava proibindo ela de ver a neta. Ele a sufocou em todos os aspectos”, acrescentou. Ele tem uma ideia do que pode ter ocorrido no domingo, quando supostamente Maira morreu, de acordo com dados preliminares da Polícia Civil. “Ele a sequestrou com um revólver. Pode ter certeza de que ele deve ter ameaçado ela, ter falado alguma coisa feia”, observou. E o fim trágico que ceifou a vida de Maira não tem muitas testemunhas, até porque a professora não tinha o costume de se abrir com muitos.

Avó dedicada, Maira Gomes teria sido proibida por Márcio até mesmo de ver a neta

Funcionários de motel estranharam comportamento silencioso do casal

Foi pela estranheza da hospedagem no Motel Santorini – Márcio e Maira não haviam consumido nada – que funcionários resolveram ligar para ramal do quarto, 24 horas depois da chegada do casal. A falta de resposta intrigou funcionários, que foram ao local para bater à porta e chamar pelos hóspedes. Àquela hora o casal estava morto. Desconfiados, os funcionários acionaram a Polí- cia Militar, por volta das 11h30 da segunda-feira, 9 de outubro. Foi aí que o quarto foi definitivamente aberto. No local, policiais militares confirmaram a informação da morte.

Os PMs acionaram a Polícia Civil às 12h40, que foi para o local juntamente com a Polí- cia Técnico-científica. E não foi preciso muita observação para que Márcio se tornasse imediatamente o principal suspeito de ter causado a morte de Maira Gomes. Pelas impressões iniciais, ele pode ter atirado na ex-namorada com dois tiros na região do tórax, de acordo com o delegado Vander Coelho, do Grupo de Investigação de Homicídios – GIH da Polícia Civil, e se suicidado na sequência com um tiro na cabeça.

Não houve luta corporal e os dois estavam vestidos, indicando que o crime teria ocorrido já na chegada ao motel. A arma foi encontrada nas mãos de Márcio. “Ele já foi ao ambiente armado, provavelmente ele já estivesse pensando nisso”, comentou sobre a possível premeditação do crime.

Entre os familiares de Márcio existe a tese de que uma terceira pessoa poderia ter entrado no local e matado os dois. Mãe, pai, filha, cujos nomes não serão mencionados em respeito a um pedido feito à reportagem, não querem acreditar que um “homem bom”, trabalhador, carinhoso e ativo pudesse ter cometido um assassinato. Eles esperam ansiosos pelos resultados das investigações e querem acreditar que o resultado prová- vel não seja a culpa do homem que desejava a todo custo reatar o relacionamento com Maira.

Delegado afirma que cena do crime não tinha sinal de arrombamento ou resistência

De acordo com amigos da professora, eles se conheceram próximo a uma “gôndola de batata” em um supermercado. E a professora, divorciada naquela época há mais de 10 anos, decidiu se envolver em um novo relacionamento. Existem poucas fotos dos dois publicadas nessa mídia social. Para o professor Rober, isso tem a ver com o fato de Márcio ter controlado suas mídias sociais..

Para o delegado Vander Coelho, do GIH, todos os indícios levam a crer que houve um homicídio seguido de suicídio

Caçula de três filhas, ela perdeu os pais quando tinha 14 anos. Eles se envolveram em um acidente de carro. Ela era uma professora de trabalho “irretocável”, de acordo com o professor Rober. Dava aula em todas as salas do Objetivo Prime, pela confiança que inspirava. A polícia ainda acredita que ela pode ter ido por vontade própria ao motel naquele 8 de outubro, o que os amigos próximos refutam.

O delegado Vander Coelho, o primeiro a chegar ao local, descreveu o que viu: “Parece que ela não foi coagida. Ou se foi, ela não tentou esboçar qualquer tipo de reação. Se ela já foi subjugada anteriormente, ameaçada com essa arma de fogo, ela não demonstrou algum tipo de reação. A entrada dela até o quarto onde eles estavam, o que nós temos de acesso a imagens, que são da área externa do prédio, não demonstra nada que leve a crer que ela estivesse tentando reagir àquilo. Se ela estava sendo ameaçada, já era anteriormente e, com muito medo, evitou alguma reação. Ou até então estava sendo levada de forma sorrateira. Foi uma surpresa para ela”.

“O local não tinha sido violado, não apresentava nenhum sinal de arrombamento, nenhuma das portas de acesso, janelas, nada que demonstrasse que houve violação daquele recinto. Os corpos estavam também sem nenhuma alteração, de acordo com o que foi encontrado”, acrescentou. Uma amiga próxima a Márcia disse que ele “nunca fez ameaças”, mas não aceitou o fim do relacionamento.

“Tínhamos planos de ele vir conhecer a minha filha”, desabafa filha de Márcio

A família de Maira não quis comentar o caso: está revoltada por ter a certeza da autoria do crime. Para eles, Márcio premeditou o ocorrido. A família de Márcio afirma “estar torcendo” para que a polícia descubra um terceiro elemento, mas as palavras dos familiares indicam que nem eles acreditam nessa possibilidade. “Estamos tentando entender o que aconteceu, o que levou ele a fazer isso”, disse um parente próximo, que preferiu não ser identificado.

A filha de Márcio, Gabby Cefalo Borges, deixou uma mensagem no perfil do Facebook de seu pai: “Ainda não tenho as palavras para te explicar a dor que meu coração está sentindo. Completamente quebrado. A minha dor dói mais ainda quando penso em você com a (o nome da neta foi ocultado pela reportagem) e como você ia ser o melhor avô e já amava ela tanto. Tudo está quebrado. Tudo que eu mais queria nesse momento é que tudo isso não fosse verdade. Te amo por eternidade Pai. Obrigado por tudo que você vez por mim. Tenha certeza que minha vida nunca vai ser a mesma. Que dor”.

Nota

Em mensagem enviada para a reportagem nesta quinta-feira (12), a filha de Márcio enviou a seguinte nota: “não moro no Brasil – mas estou indo essa semana. Ele era um ótimo pai, sempre muito amoroso e nunca mostrou nenhum tipo de agressão comigo, nem minha mãe. A gente ama ele muito. Estava com uma viagem planejada para ele conhecer a minha filhinha e agora a gente não vai ter essa chance. Não entendo. A gente tinha muitos planos para o futuro. Estou arrasada. Ele sempre foi meu fã número 1. Sempre pude contar com ele. Não tem mais nada para comentar nesse momento. A polícia está investigando tudo”.

Longe

Maira Gomes Vila Nova e Márcio Rodrigues Borges pareciam destinados à separação. Ela, uma pessoa animada, com espírito livre, doce e que gostava de se divertir. Ele, fechado, introspectivo, uma pessoa à qual poucos tinham acesso, mas que na sua vida familiar demonstrava ser querido. É tão certa a separação que, em 2016, Maira quis se afastar de Márcio várias vezes, mas ele, por insistência, cercando a professora por meio de contatos com terceiros, criava o ambiente de reaproximação. Márcio era o único insatisfeito com essa possibilidade.

Na terça-feira, 10 de outubro, um dia depois que a polícia encontrou os corpos, às 9 horas, Márcio Rodrigues foi enterrado. Por volta das 10h30, foi a vez de Maira Gomes Vila Nova, também no Cemitério São Miguel. Na cerimônia de Márcio, o silêncio e poucas pessoas. No de Maira, a multidão de alunos que prestou uma homenagem a ela. A diferença de horários foi para que não houvesse o constrangimento entre as famílias. Culpado ou não, Márcio não está mais presente para presenciar um fato ilustrativo: Maira está longe dele, como ela queria

Ex-alunos de Maira homenageiam a professora em seu velório,

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