Luiz Lacerda: “Nós não estamos na Câmara para fazer uma oposição atrapalhando o prefeito”

Em sua terceira atuação como vereador, Luiz Lacerda acumula desde 1997 diversas passagens pela Câmara, seja como suplente ou como titular. Ele se considera moderado nas palavras, mas acredita que a Câmara deve cumprir seu papel de fiscalizar a atuação do Executivo anapolino. Em sua avaliação da gestão Naves, ele pontua que o prefeito ainda não conseguiu “convencer” a população em seu trabalho como mandatário-chefe da cidade. Lacerda defende um outro projeto para o município, comandado pelo seu partido, mas pontua que respeita a Gestão Municipal atual e, para o bem da cidade, quer que o trabalho dê certo. Ele vê com ressalvas a promessa do governador Marconi Perillo de investir R$ 10 milhões na cidade, por meio do programa Goiás na Frente: “é costume do Governo do Estado prometer e não cumprir”.

A Voz de Anápolis – Você é um vereador experiente. Qual é a sua avaliação do trabalho na Câmara dos Vereadores até o mês de agosto?

Luiz Lacerda – Frequento a Câmara desde a legislatura de 96, na condição de suplente. De lá para cá, até assumir o mandato de forma definitiva, em todas as legislaturas tive a oportunidade de assumir a Câmara Municipal. Tenho uma experiência muito grande na Câmara, até que em 2011 tive a oportunidade de assumir de forma definitiva o mandato. Fui reeleito em 2012, 2016, de forma que em todas as legislaturas de 96 para cá eu tenho participado como vereador da Câmara Municipal. E sem dúvida nenhuma é uma função muito gratificante. Eu agradeço à população de ter me dado esta oportunidade de participar ativamente como um dos representantes da população na Câmara. O Legislativo, de forma geral, é a casa da população, ali está a casa que representa o povo. E o povo que escolhe, que determina, através do voto, quem são os ocupantes das cadeiras. Cada segmento da sociedade tem sua forma de escolher seu representante. Sem dúvida, o legislativo é essencial para a democracia, é o principal pilar da democracia, não só a nível municipal, mas também estadual e federal. Tem falhas, mas sem ele seria muito pior. Representa, de fato, o perfil da sociedade.

AVA – A sociedade está bem representada por esse novo grupo, incluindo veteranos e novatos?

LL – Essa mescla de veteranos ajuda em todos os segmentos, não só na Política, não só no Legislativo. Mas quando você faz esta mescla entre aquele que está começando e quem tem mais experiência, eu vejo que é salutar em todos os segmentos. Eu acho que na política isso é essencial, tem que haver a renovação. O poder não pode ser feito com as mesmas pessoas. Isso é benéfico para a população, porque traz um sangue novo. Estamos passando por um período em que a população está descrente com a classe política, então é necessário que haja essa renovação, porque essa renovação traz esperança de dias melhores.

AVA – Sua postura é de ser mais contido nas críticas. Esta é realmente uma característica sua?

LL – Sempre me pautei por buscar o senso e o consenso. Através do atrito e da briga acabamos perdendo a razão. Quando mantemos a sobriedade e o diálogo você tem condições de render mais. Por isso tenho cuidado com o que falar. Vemos hoje acusações infundadas. A informação chega muito rápido ao cidadão. Antigamente, demorava ter acesso a informações que hoje estão online.

 AVA – Hoje existem muitos vereadores da base que não deixam de se posicionar contra o prefeito em algumas situações. Isso faz com que deixe de existir uma base pura na Câmara?

LL – Independentemente de quem esteja na Prefeitura, a Câmara tem que cumprir o seu papel. O papel da Câmara é aquele de fiscalizar no município o andamento da administração, fiscalizando a aplicação dos recursos públicos. E eu tenho dito desde a legislatura passada que a Câmara tem uma facilidade muito grande de fazer isso pelos mecanismos à disposição dos vereadores, da população. Temos o Diário Oficial, que foi implantado pelo ex-prefeito Antônio Gomide, temos o Portal da Transparência. Temos mecanismos que facilitam o trabalho do vereador. Antigamente, tínhamos que fazer isso através das críticas. Hoje temos estes mecanismos, estas facilidades que facilitam o trabalho, uma vez que essa transparência é de lei, tem que estar à disposição dos vereadores e da população. A crítica ao Executivo por parte do Legislativo ajuda. Quando fazemos as críticas a alguma situação do Executivo, não estamos sacaneando o prefeito o denegrindo a imagem de ninguém. Essas críticas visam ajudar ao Executivo, secretários e prefeito, a resolver aquele problema. A Câmara cumpre o papel de fazer as críticas que auxiliem o Executivo.

 AVA – Sua vivência no Executivo te dá mais credibilidade para avaliar a gestão. Qual sua avaliação do trabalho do prefeito Roberto Naves?

LL – Minha posição em relação a isso tem sido muito clara. Faço parte do único partido de oposição na Câmara Municipal, que é o PT. Estou ciente da minha função e ciente do trabalho que deve ser feito. Nós não estamos na Câmara para fazer oposição atrapalhando o prefeito. Vejo que hoje a administração do prefeito Roberto Naves não achou ainda o caminho no sentido de passar para a população aquela esperança. Porque quando a população faz uma mudança, ela quer o retorno para melhor. Vejo que o prefeito está trabalhando para isso, é inegável que a Prefeitura está trabalhando, mas vejo que o prefeito Roberto Naves não conseguiu ainda convencer a população de que realmente precisava da mudança. Eu vejo que ele está tentando provar isso para a população, tentando buscar esse entendimento junto à população, mas o sentimento que nós temos é que a população não está ainda convencida de que valeu a pena a mudança. A nossa atuação na Câmara Municipal é de fazer oposição, não ao prefeito Roberto Naves, não à administração em si, mas esse não é o projeto que nós temos para a cidade de Anápolis. A nossa oposição é nesse sentido. O projeto que está aí não é o nosso, não é aquele que nós defendemos para a cidade de Anápolis. Mas nós respeitamos, torcemos para que dê certo, porque se ficarmos torcendo contra, estamos torcendo contra a cidade, contra a população. Embora não seja o nosso projeto, não seja aquilo que temos idealizado para a cidade, respeitamos o projeto do prefeito Roberto Naves e torcemos para que dê certo.

AVA – Qual é o projeto que você idealiza para a cidade?

LL – Do partido. O projeto que eu falo é o projeto do PT, do Partido dos Trabalhadores, não o projeto pessoal do Luiz Lacerda, mas obviamente, quando nós estivemos na administração, tanto do ex-prefeito Antônio Gomide, quanto do ex-prefeito João Gomes, obviamente o que nós temos idealizado para Anápolis é diferente do projeto que está aí. Mas eu falo em termos de partido, projeto de administração, em relação ao Partido dos Trabalhadores.

AVA – Esse trabalho de assessor, lhe restringiu um pouco na apresentação de projetos pessoais. Como tem sido essa apresentação dos seus projetos?

LL – Temos que ter cuidado para não fazermos projetos apenas para ser mais um projeto, mais uma lei apenas para encher gaveta. Eu procuro ser prático. Não adianta eu entrar na Câmara com um projeto que não tem como ser colocado na prática. Eu tenho tido esta prática desde minha presidência na Câmara, que comecei em 2009. Assim que assumi a Câmara, tive essa postura de colocar projetos e ideias que sejam exequíveis. Não adianta vender fantasia para a população. Tenho várias ideias, projetos, vou apresentar mais alguns, mas não adianta fazer projeto para ser transformado em lei (apenas). Quantas leis municipais, milhares, que estão engavetadas e não foram cumpridas? Aprovar o projeto na Câmara é o de menos, porque temos a parceria dos colegas vereadores, é um precisando do outro, então nós não temos dificuldades de aprovar um ou outro projeto. Mas procuro ter esse cuidado, se na prática esse projeto tem condição de ser executado.

AVA – O senhor já abordou em plenário os R$ 10 milhões que o governador Marconi Perillo prometeu para Anápolis. O senhor acha realmente que o governador vai cumprir essa promessa? E caso cumpra, será neste ano?

LL – Essa que é a dúvida. O grande problema desse Governo do Estado, do governo Marconi Perillo, é a dúvida que ele deixa. Quando usamos a tribuna para falar que esse projeto Goiás na Frente mais parece um projeto de mídia política, de mídia eleitoreira do que para ajudar os municípios, é por isso: a própria população desconfia, porque são promessas e promessas. Nós vemos promessas do governador Marconi Perillo que são do primeiro mandato, que não foram cumpridas. Por isso ficamos na dúvida, se virá, se não virá, porque é costume do Governo do Estado prometer e não cumprir. Por isso nós colocamos a dúvida, alertando, para ninguém dizer que não falamos. Vamos esperar pra ver. Vamos torcer que venha, que a cidade seja beneficiada. Quando nós colocamos as dúvidas, como fazemos com o programa Goiás na Frente, é justamente por isso. Porque temos várias promessas de muitos mandatos que não foram cumpridas. Esperamos que a cidade de Anápolis realmente seja beneficiada, uma vez que o Governo anuncia que tem muito dinheiro. Enquanto toda a nação está penando com dificuldades, aqui em Goiás é o contrário. O Governo anuncia que está chovendo dinheiro. Por isso que fica a desconfiança. Mas nós torcemos para que venham os recursos e o prefeito Roberto Naves possa pressionar o governador, já que este está anunciando que está com uma fartura de recursos no Estado, então que tirar proveito disso e trazer não somente os R$ 10 milhões, mas resolver mais alguns problemas que dependem de parcerias, não só com o Governo do Estado, mas também com o Governo Federal. Vejo que agora é o momento, uma vez que o Executivo Municipal está aliado com o Governo do Estado, com o Governo Federal, eu vejo que realmente é o momento de se buscar os recursos para a cidade de Anápolis.

AVA – Os vereadores disseram que a última eleição foi uma das mais difíceis, por causa do descrédito da população com a política e com os políticos. Para 2018, você acha que será pior? Como será o cenário?

LL – O cenário nacional que nós vemos e que reflete nos cenários estadual e municipal, é que em Brasília, esse grupo que mantém o Governo Temer no poder armaram uma arapuca para pegar o PT e a presidente Dilma e acabou caindo todo mundo nessa arapuca. Hoje, toda a classe política ficou refém daquilo que foi criado em Brasília para poder tirar do poder a presidente Dilma. Está comprovado que foi um golpe. Para você ver que o crime de pedalada fiscal foi considerado um crime maior que o de corrupção, de formação de quadrilha, de lavagem de dinheiro, que são os crimes pelos quais o atual presidente está sendo acusado. E o congresso sequer deixou que se apurasse isso, para você ver a situação que nós estamos vivendo hoje. E hoje toda a nação está refém disso, daquilo que nós vivemos em Brasília, desse grande imbróglio em que o Congresso acabou entrando. Hoje tem partidos que se aliaram para dar o golpe na presidente Dilma e já estão arrependidos, acham que foi a pior coisa que fizeram, porque ficaram sem rumo. Hoje, são partidos que perderam a sua identidade, não sabem para que rumo irão seguir. Todo o país, as cidades, os estados estão reféns de Brasília, esperando o que irá ocorrer em Brasília. Mas nem eles mesmo sabem qual é o caminho. Tentaram um caminho. Nós avisamos, muitos analistas avisaram que tirar a presidente Dilma do poder era o pior caminho. O impeachment da presidente Dilma naquele momento era o pior caminho. E agora isto está sendo comprovado, porque Brasília não sabe qual caminho seguir.

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