O submundo violento, luxuoso e trágico do tráfico em Anápolis

Anápolis se torna ponto estratégico para traficantes de drogas e rota de passagem para grandes carregamentos vindos de outros estados e países: major que atua no combate garante: “tráfico fatura mais do que a Coca-Cola”

Felipe Homsi

Quem visita o pátio da 3ª Delegacia Regional da Polícia Civil em Anápolis, logo se depara com uma lancha estacionada e alguns veículos apreendidos, entre eles uma Range Rover. O cobiçado veículo símbolo de status foi autorizado pela Justiça para ser usados em ações policiais. Estes dois objetos foram apreendidos, fruto de ações realizadas no combate ao tráfico de drogas na cidade. O negócio é lucrativo e ganhou contornos de ‘glamour’, uma vez que criminosos estão cada vez mais vivendo uma vida de ostentação, como emergentes sociais.

Lancha foi apreendida pela Polícia Civil no município em posse de traficantes: mundo de ostentação

Este é o cenário do tráfico de drogas que navega pelo município, envolto em roubos, furtos, crimes violentos e com um objetivo claro: o lucro. Sabe-se que este mercado existe e é lucrativo, mas nem sempre é fácil saber de onde vieram ou para onde vão os bens adquiridos por quem entra no mundo das drogas em busca de uma profissão fora da lei.

Carro de luxo, que já pertenceu ao mundo do tráfico, agora é usado pela Polícia Civil para ações de combate ao crime

Major Hrillner Braga Ananias, comandante da Companhia de Policiamento Especializado – CPE, vinculada à Polícia Militar, afirma que o tráfico “está presente em toda a cidade”. Está pulverizado e, segundo ele, quem atua neste mercado adquire uma lucratividade muito rápida – afinal, os pagamentos são em “dinheiro vivo”. “O tráfico fatura muito mais do que a Coca-Cola. Você vai em todo bar e acha uma Coca. Imagine droga”, compara.

Valores

Somente em 2016, foi apreendida mais de uma tonelada de drogas na cidade pela CPE, principalmente cocaína, crack e maconha. Em apenas uma operação, realizada no Conjunto Filostro Machado, meia tonelada foi apreendida no final do ano passado pela Companhia. Em 2017, já são mais de 100 quilos de drogas captados pela corporação em menos dois meses de ações.

Conforme informou, o impossível calcular o lucro do tráfico no município, mas uma coisa é certa: um crime leva a outro e o final, quase sempre, é trágico. Segundo explica o major, o ato do tráfico está diretamente ligado com o uso da violência. “Um crime leva a outro. Traficar geralmente envolve roubar, furtar e matar”, conforme indicou Major Hrillner, da CPE. Em algumas ações policiais no Estado, o valor apreendido ultrapassa R$ 10 milhões.

Uma das apreensões mais inusitadas e graves: um fuzil calibre .556 fazia parte do arsenal de traficantes na cidade

No ano passado, foram apreendidas 134 armas pela Companhia de Policiamento Especializado e 300 apreensões de pessoas, sendo a metade menores infratores. Neste ano, foram 15 armas capturadas nas mãos de bandidos. Em uma das ações, um fuzil calibre .556 foi pego com bandidos em uma casa. Conforme indica o comandante da CPE Anápolis, todos os dias são feitas ações ostensivas, o que levou à redução da criminalidade na cidade.

Truculência

Informações da população indicam uma certa truculência da Companhia de Policiamento Especializado na realização de ações ostensivas, que frequentemente são questionadas por grupos vinculados aos direitos humanos. “CPE não é truculenta”, defende Major Hrillner, exemplificando que existe um trabalho de aproximação da corporação com a população. Crianças, adolescentes, profissionais liberais e demais curiosos visitam a unidade para conhecer mais e até tirar fotos com os policiais e os veículos.

“É claro que com bandido eu não vou pedir ‘por favor’. Eu não vou ser hipócrita com você. Com bandido, nós somos duros. Não pode ser diferente”, relata, afirmando que os cidadãos de bem são tratados com respeito: “Agimos dentro dos preceitos legais”.

Companhia de Policiamento Especializado tem popularidade e tira até selfie com visitantes: aproximação da corporação com a sociedade

Quanto à crescente onda de crimes, ele explica que uma das raízes do problema é que “os jovens estão em um caminho que me assusta, principalmente na questão dos estudos” e acrescenta que “a sociedade está chegando no limite dela”. Somado a este cenário, “as pessoas são presas e não ficam presas” e a maioria dos criminosos reincide.

Polícia Civil

Dados informados pela 3ª Delegacia Regional da Polícia Civil apontam que no Estado de Goiás foram apreendidos em 2016 quase 10 toneladas de drogas (9.878,81 quilos). O Grupo Especial de Repressão a Narcóticos no município (GENARC) não quis se pronunciar sobre o tráfico na cidade e não apresentou dados locais.

Mas é de conhecimento de autoridades vinculadas à Polícia Civil que Anápolis representa uma fatia considerável no bolo de ações da corporação. Isto porque existem pontos estratégicos para os produtos entrarem na cidade, como os entroncamentos de rodovias, que facilitam a chegada e escoamento da produção.

PF

A Delegacia da Polícia Federal em Anápolis, vinculada à Superintendência Regional, apreendeu em 2016 no município 535 quilos de maconha, 3,4 quilos de cocaína, 40 gramas de crack e 15 quilos de cafeína – esta última para “fazer render” a produção de cocaína. Três laboratórios de produção de drogas foram encontrados, utilizados para o processamento da pasta-base de cocaína. Em torno de 10 veículos foram apreendidos.

Notícias Relacionadas