Projeto para construir centro administrativo na área do Parque Ipiranga mobiliza Câmara e anapolinos, que rechaçam proposta

Com os investimentos do programa “Goiás na Frente” em Anápolis, gestão municipal anunciou a construção de prédios na área do Parque Ipiranga para abrigar três secretarias municipais, tirando o perfil residencial, de lazer e de preservação ambiental do espaço

Henrique Morgantini

“Já está em andamento a revitalização do Ipiranga, levando para lá três secretarias”. Foi esta a informação que o prefeito de Anápolis, Roberto Naves (PTB), concedeu em entrevista exclusiva à Voz de Anápolis, na edição 069, em abril deste ano. Junto às três secretarias, Naves ainda anunciou a intenção de fazer um Jardim Botânico no mesmo espaço. Na mesma entrevista, o prefeito explicou a origem do dinheiro usado para o projeto: a verba destinada à cidade vinda do programa “Goiás na Frente”, do Governo de Goiás.

Em junho, durante o evento de assinatura do convênio entre os governos municipal e estadual, mais detalhes foram revelados. Ao custo de R$ 3 milhões, serão feitas adequações e construções necessárias para a construção do espaço que irá abrigar três pastas: Educação, Saúde e Meio Ambiente.

O local escolhido é uma área anexa ao Parque, que foi adquirida para ser uma continuação do espaço de preservação. Fica na Avenida Professora Zenaide Roriz. O processo está avançado e tem até mesmo uma maquete virtual, ainda que não tenha sido sequer debatido com a população da cidade e, em especial, com os moradores da região do Jundiaí.

Na rua em que será feito o acesso ao projeto há um edifício sendo construído e outro está em sua esquina, usando o mesmo espaço como escoamento de veículos dos futuros moradores. Trata-se do prolongamento da Zenaide Roriz, um endereço estreito e que já está no seu limite para o volume de carros que trafegam por ali, tanto por frequentadores do parque quanto dos próprios moradores.

Clube

A reunião destas três pastas no novo endereço irá acarretar um impacto estimado de pelo menos 800 servidores nos dois turnos de trabalho. São centenas de carros e motos, além de veí- culos oficiais das três secretarias que precisarão disputar o espaço com frequentadores do parque e moradores. A área em questão está em anexo ao Parque Ipiranga, onde funcionavam as dependências do Clube Ipiranga. É dentro do antigo Clube Ipiranga que estão localizadas, inclusive, as nascentes do córrego conhecido como “Lavadeiras” que foram preservadas com a aquisição do clube pela Prefeitura.

Parte da área que pertence à Prefeitura, onde antes funcionava o Clube Ipiranga: projeto para ser continuidade do parque agora pode virar sede de secretarias

A área foi adquirida em 2013 pela Prefeitura e seu parcelamento foi quitado em 2016. Desta forma, a gestão Roberto Naves herdou sem qualquer ônus a área já paga e pronta para receber quaisquer melhorias, benfeitorias. Desde um projeto que beneficie e atenda a expansão do parque, que é o principal da cidade, até mesmo a criação de projetos culturais, esportivos, que contribuam com o perfil residencial do Jundiaí. Mas a criação do Centro Administrativo é a proposição mais questionada e com maior impacto negativo na região.

Impacto

O secretário de Obras, Vinicius Sousa, informa que está com os projetos do chamado Centro Administrativo Ipiranga prontos para serem encaminhados para o Governo Estadual a fim de chancelar a parceria com o programa Goiás na Frente. A principal alegação em levar as três secretarias – Educação, Saúde e Meio Ambiente – para o Bairro Jundiaí é “sair do aluguel”. Atualmente, as duas primeiras pastas estão ocupando prédios alugados.

Projeto do “Centro Administrativo Ipiranga”, a ser feito dentro do Jundiaí: transferência de cerca de 800 servidores para a região residencial diariamente

Mesmo com o impacto ambiental para a região e para o próprio parque, Sousa adianta que não será realizado nenhum investimento no parque. “Lá não vai ter nada, só vamos fazer a manutenção mesmo do local”, antecipa. Com a realização do projeto, o secretário afirma que haverá uma economia de “quase R$ 300 mil por mês”.

Moradores

Para os moradores, a notícia não poderia ser mais catastrófica. Moradora da região desde 2014, Suely Narcisa prevê o impacto na mobilidade e até mesmo na capacidade de ir e vir dos moradores. “Hoje já existe uma certa dificuldade no acesso à região central, imagina com a chegada deste tanto de gente”, sugere. Para um dos futuros moradores da região, é o momento de impedir a obra ou de repensar nos investimentos. O empresário, que concedeu entrevista sob a condição de anonimato, adquiriu um imóvel em frente ao parque em um investimento superior a R$ 2 milhões.

O maior projeto imobiliário de Anápolis fica a menos de 300 metros da região onde se propõe criar uma sede da prefeitura: futuro morador, que investiu mais de “R$ 2 milhões”, fala em devolver imóvel para a construtora

“É um absurdo completo. O Jundiaí sempre foi um bairro residencial. O parque é um charme da cidade e ponto de encontro das famílias e dos jovens. Por isto foi feito um investimento tão alto em um imóvel como este, que é um por andar. Aí, do nada, vem um centro administrativo? Enquanto Goiânia mudou seu centro administrativo para fora da região central e das áreas mais movimentadas, o prefeito quer colocar dentro de um bairro”, desabafa. O futuro morador do Jundiaí pensa em desfazer o negócio com a própria construtora se a “ameaça for confirmada”. “Eu não quero morar do lado de uma prefeitura”.

Debate sobre projeto ganhou a Câmara e dividiu vereadores

O vereador Antônio Gomide (PT) promoveu discurso durante o grande expediente da sessão plenária da Câmara Municipal na última quarta-feira (23) em defesa da preservação do Parque Ipiranga como um espaço de preservação ambiental. Isto porque, segundo informações na imprensa e do pró-prio prefeito Roberto Naves, há a intenção da gestão municipal em construir naquele espaço prédios para abrigar secretarias municipais.

Gomide pede que a população seja consultada: será que lá é o único lugar ou o adequado para colocar a Prefeitura?

A origem da verba para a execução desta obra vem, segundo o gabinete municipal, do programa “Goiás na Frente”, do Governo Federal. A intenção é construir imóveis na região do Parque Ipiranga e abrir no local três secretarias: Saúde, Educação e Meio-Ambiente.

“Será que é a melhor opção o Parque Ipiranga receber a sede de secretarias tão pesadas como a Saúde, a Educação e o Meio Ambiente? No único parque que temos funcionando, já que os outros estão abandonados. Quantas e quantas área nós podemos usar sem ser o Ipiranga”?, questionou o vereador que, como prefeito, foi o criador do parque, localizado no Bairro Jundiaí.

“Um parque que é hoje referência para 1,5 mil pessoas diariamente. Onde os estacionamentos já estão saturados. Aí, vamos inserir ali servidores, os carros dos trabalhadores, mais os carros da Educação, da Saúde e do Meio Ambiente. Repito: será que aquele ambiente é para isto”?, indagou Gomide.

Consulta

Para o parlamentar, os vereadores têm uma oportunidade única de promover o debate e de sensibilizar o poder Executivo a fim repensar esta decisão. “Temos de despertar a população para isto porque nenhuma consulta foi feita. Temos de saber se esta mudança vai agradar aquela comunidade”, sugeriu o vereador.

“O Parque Ipiranga é referência na cidade em qualidade de vida, de Saúde e qualidade de parque. Não podemos perder nenhum espaço deste para que ele vire centro administrativo”, encerrou Gomide.

Polêmica

Domingos Paula (PV) questionou a fala de Gomide e afirmou que o funcionamento do local durante o dia como espaço administrativo, não prejudica a quem frequenta o parque. “Anápolis não é uma cidade de gente preguiçosa não, será que as pessoas ficam o dia todo ali no parque”, comentou o vereador.

Domingos Paula: parque só é usado no fim de tarde

“Eu já fui muitas vezes. Só tem gente por volta das cinco, cinco e meia. Durante a semana nós tem (sic) uma população anapolina que trabalha, não tem tempo de ficar o dia todo no parque, não”, encerrou. O vereador fez esta fala para defender que sejam transferidas para área do Parque Ipiranga três secretarias municipais: Educação, Meio-Ambiente e Saúde.

Reação

O vereador Teles Jr., líder do PMN na Câmara, falando em nome da bancada, mostrou-se contrário à iniciativa da construção e alinhou seu discurso ao impedimento do projeto. “O Bairro Jundiaí não tem mobilidade urbana para receber isto. E o Parque é uma área de preservação ambiental”, disse. Para Teles, o projeto deve ser discutido e os prédios devem, sim, ser instalados. Mas em outro local.

Teles Jr. defende os interesses da região: “o bairro é residencial e não tem mobilidade para suportar este impacto”

Para o vereador do PHS, João da Luz, há um claro congestionamento de vagas de estacionamento já verificado pelos próprios frequentadores do parque. “O vereador Teles tem razão, ali merece um estudo. Ali é um ponto turístico e os moradores frequentam ali como opção de lazer, então é preciso um estudo”, defendeu. João da Luz se revelou frequentador do parque em horário comercial. “Sou frequentador e lá tem um pique de movimento nas ruas às três, quatro, cinco da tarde”, apontou. Já Pedro Mariano (PRP) também questionou: “Como que vai abrigar isto no parque? O espaço não dá”.

João da Luz propõe um estudo de impacto antes: estacionamento já é insuficiente até para os frequentadores

Ministério Público já foi acionado por morador e deve analisar impacto

A Promotoria do Meio Ambiente de Anápolis (15ª PJ) informou que a instituição foi provocada na quarta-feira, 23, por um morador da região do Parque Ipiranga que noticiou à Promotoria sobre o assunto. O documento pede que o MP se posicione dentro do que é previsto na Lei quanto ao impacto que pode ser gerado com esta mudança.

A promotora responsável pelo Meio Ambiente em Anápolis, Sandra Mara Garbelini, deverá apreciar o projeto a partir da solicitação de moradores do Jundiaí

Segundo a Promotoria, este morador contou que recebeu a visita de pessoas que estariam realizando um estudo de impacto de vizinhança sobre a construção de prédios administrativos na área do parque e que ele reclamou desta intenção.

Até então, a Promotoria não havia sido notificada desta intenção do prefeito no sentido em que a titular, Sandra Mara Garbelini, promotora do Meio Ambiente, solicitou informações oficiais a todos os envolvidos. Os questionamentos devem ser respondidos em 15 dias.

Entre as informações que estão documentadas consta se há a intenção, de fato, para a construção de prédios administração municipal no local, questionando o caráter de Área de Preservação Ambiental – APP – do Parque Ipiranga.

Abaixo-assinado

Os moradores da região do Parque Ipiranga e das ruas perpendiculares estão se mobilizando para, independentemente das questões legais ou da decisão do prefeito em realizar a mudança, que o projeto seja barrado pelos moradores. Um abaixo-assinado está percorrendo as residências e os edifícios da região a fim de coletar assinaturas para ingressar com um pedido de suspensão desta iniciativa.

O movimento é organizado pelo vereador Antônio Gomide. Quando da sua primeira passagem pela Câmara Municipal, foi o vereador quem conseguiu na Justiça, em 2006, que a área não fosse vendida para a iniciativa privada e se tornasse alvo de exploração imobiliária.

Histórico

Em 2010, já como prefeito de Anápolis, foi o mesmo Gomide quem realizou o projeto e concretizou a construção do Parque Ambiental Ipiranga na mesma área. O espaço anexo ao parque, onde funcionava a área social do extinto clube homônimo, foi adquirido em 2013 de forma parcelada e com a quitação realizada em 2016.

A finalidade da realização desta compra foi para que o espaço não se tornasse, novamente, alvo de especulação comercial e que, com isto, tirasse o perfil de área de preservação ambiental. O espaço estava sem uso há anos e possui uma estrutura antiga. A intenção da gestão à época era promover a expansão do parque e a criação de áreas comuns cuja finalidade fossem a de contribuir com a vocação de interação social e preservação ambiental já presentes na região com o parque Ipiranga.

Prefeito visita área do Parque Ipiranga e insiste intensão de instalar secretarias da Prefeitura no local

O projeto de Roberto Naves em construir na área do Parque Ipiranga, que antes abrigava o antigo Clube Ipiranga, secretarias da Prefeitura está movimentando o gabinete municipal. Na manhã desta sexta-feira, 25, de última hora, Naves visitou o local e mesmo com a repercussão negativa provocada na cidade, ratificou sua intensão de que pretende construir, ao custo de R$ 3 milhões, o Centro Administrativo Ipiranga na área.

O prefeito justifica que já tem uma infraestrutura pronta no local se referindo a um galpão que o então Clube Ipiranga utilizava quando ainda era proprietário da área. “Não será feita construção aqui. Vamos aproveitar o espaço que tem”, disse Naves. Entretanto, o projeto virtual divulgado nas redes sociais tem característica de um novo prédio, inclusive, com fachada planejada. “Não vai afetar em nada”, defende.

Naves também disse que está levando em consideração o impacto no trânsito e de vizinhança. Mesmo não apresentando os resultados destes estudos, ele disse que o projeto está pronto e que será encaminhado no dia 30 ao governo. “O governador assinando já vamos licitar. As obras devem começar em meados de novembro para ficar pronto no final do ano que vem”, afirmou. Sobre a necessidade deste projeto, o prefeito considera que a economia de R$ 30 mil mensais em aluguel o justifica.

Nas redes sociais, projeto é visto com revolta por anapolinos

 Como todas as grandes polêmicas, as redes sociais servem como um catalisador de opiniões e posicionamentos diversos. E com o caso do anúncio da construção do Centro Administrativo Ipiranga houve uma grande movimentação e comoção por parte dos anapolinos quanto a ideia defendida pelo gabinete municipal.

Acompanhe algumas das reações:

“Ridículo esse projeto, tanta coisa pra fazer ali o cidadão quer construir centro administrativo, área com mina d’Água, mata, lugar pra ser fazer um projeto para melhorar a qualidade de vida da cidade! Te contar, essa cidade não tem explicação”

– Tiago Oliveira

“O único parque decente que existe em Anápolis! Esse cara é sem noção!”

– Tatiana Fonseca

“Proposta totalmente sem noção, ilegal e insustentável”

– Alessandro Pedroso

 

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