RAIO-X: Saúde em Anápolis à beira do colapso

Desassistida, população se depara com a falta de médicos e, conforme relatório apresentado pelo sindicato que representa a categoria, até mesmos animais mortos foram encontrados em unidades municipais

Felipe Homsi

“Não adianta ter dinheiro, sem que a Saúde esteja em dia”, é o que ensina o ditado popular. E para quem não tem nem um, nem outro, tudo é ainda mais difícil. Em Anápolis, um quadro assustador das unidades de saúde foi apresentado pelo Sindicato dos Médicos local. Após este relato, A Voz de Anápolis visitou algum lugares e constatou o estado de alerta e gravidade traçados pelo Simea – Sindicato dos Médicos de Anápolis.

A diretoria do sindicato já declarou estado de greve e apresentou um relatório com diversas feitas imagens ao longo do ano revelando problemas nas unidades de saúde. Segundo alegam, em seis meses de gestão municipal, problemas já poderiam ter sido pelo menos aliviados, dando melhores condições de atendimento à população.

O documento foi elaborado entre novembro de 2016 e abril de 2017 com o objetivo de apresentar as condições do sistema de saúde anapolino e outros municípios pactuados com os quais são mantidos convênios. A falta de manutenção nos prédios, o atraso da equipe da Prefeitura nos reparos e a falta de sensibilidade no atendimento às demandas dos profissionais de saúde e da população foram evidenciados.

“As instalações vão se deteriorando, os equipamentos se decompondo, toda a estrutura física se torna perigosa e arriscada para os que permanecem horas ali trabalhando, e também aos pacientes que vão em busca de solução para problemas de saúde”. Este relato está no documento produzido para ser apresentado ao Ministério Público. O estado de greve dos médicos municipais, declarado no dia 9 de junho e noticiado com exclusividade pelo portal A Voz de Anápolis, é o começo de um manifesto de indignação da categoria contra o descaso do poder público.

Visitas

Não é preciso muita caminhada para conferir que o cenário hospitalar do município está realmente precisando de cuidados e talvez a saúde anapolina precise passar um período na UTI para um tratamento intensivo. No CAIS Abadia Lopes, Claudia Fernanda Silva de Oliveira está desde domingo com seu filho de 14 anos, que apresenta um quadro de pneumonia. Ela afirma que profissionais de saúde desta unidade perguntaram se ela poderia comprar um medicamento superior ao que era oferecido na unidade, que estava em falta.

Foi então que, indignada, a mãe buscou a imprensa para mostrar sua indignação, não porque não poderia comprar a medicação, mas pelo fato de não achar justo com quem não tem condições de arcar com este gasto, mesmo pequeno. “Isso é um absurdo e o medicamento é caro”, detalhou. “Não é só ele que está precisando, mas vários outros. E quem não tem condição de comprar?”, questionou.

Um outro exemplo das falhas no atendimento pode ser facilmente visualizado na entrada do CAIS do Jardim Progresso. Um informativo está afixado indicando que pacientes com consultas marcadas para o dia 16 de junho somente serão atendidos no dia 30 do mesmo mês, sem explicações adicionais.

Médicos

“Poderia ser diferente”, detalha o médico psiquiatra Márcio Henrique Cunha de Paiva, presidente do Sindicato dos Médicos de Anápolis – Simea. Ele explicou que durante o estado de greve, profissionais de saúde irão usar braçadeiras pretas no braço em sinal de “luto” pelo estado da saúde no município. Faixas, outdoors estão sendo confeccionados e vão ser espalhados pela cidade.

Salário defasados, necessidade de novos profissionais – faltam doze médicos nos PSFs, o corte de plantões; a falta de reposição de médicos com atestado, férias ou que pediram desligamento; falta de medicações, reagentes para exames laboratoriais e insumos, cortes nas gratificações pelo prefeito Roberto Naves. A lista vai crescendo à media que se conversa com o presidente do Simea, Márcio Paiva.

Paiva detalha ainda que muitos profissionais das unidades de saúde estão trabalhando de maneira irregular fora do local onde deveriam estar lotados. Isso faz com que no sistema pessoas sejam registradas em algumas unidades por anos sem nunca terem trabalhado no local.

“Estão tirando os médicos dos PSFs (postos do Programa de Saúde da Família) e colocando residentes”, evidencia ainda. O trabalho dos residentes deveria abranger um universo de no máximo três mil pessoas, mas cada um deles chega a ficar responsável pela cobertura de até sete mil pessoas, considerado irregular, de acordo com o presidente do Sindicato dos Médicos. Os residentes deveriam estar sempre acompanhados de um preceptor, pois atuam nas unidades apenas para aprender determinada especialização, mas acabam atuando como médicos.

A falta de segurança nas unidades de saúde e a falta de pagamento de insalubridade para médicos dos Centros de Apoio Psicossocial engrossam o caldo dos problemas na Saúde anapolina.

 Condições

Conforme detalhou Márcio Henrique Cunha de Paiva, presidente do Sindicato dos Médicos de Anápolis – Simea, as condições de trabalho dos médicos em Anápolis apresentam precariedades e muitas delas têm a ver com a recente decisão do prefeito Roberto Naves em retirar benefícios de diversas categorias e com as mudanças no sistema de gratificações, que fez com que muitos profissionais perdessem renda.

Conforme o relatório do sindicato, o piso salarial está defasado e corresponde a aproximadamente 34% do que é estabelecido por federações médicas em todo o país. Em Anápolis, os médicos ganham R$ 4.769,20; o piso nacional é de R$ 13.847,93.

Problemas nas Unidades, de acordo com relato de médicos encaminhado ao MP

Profissionais tem que fazer até “vaquinha” para comprar medicamentos, demais produtos e manter estrutura do prédio do CAIS Jardim Progresso

 CAIS do Jardim Progresso

  • Atendimento ambulatorial e emergencial em nefrologia, endocrinologia, ginecologia, urologia, cardiologia, angiologia, clínica, pneumologia, geriatria, gastrenterologia, pediatria, otorrinolaringologia, dermatologia, psiquiatria e serviços de psicologia e nutrição, posto de coleta de laboratório, Raio-X, ultrassonografia, centro de testagem e aconselhamento em doenças sexualmente transmissíveis e aids (C.T.A), planejamento familiar, programa de tuberculose e hanseníase, prevenção do câncer de colo uterino, teste da mamãe, teste do pezinho, vacinação e dispensação de alguns medicamentos via farmácia da unidade.
  • Estrutura física precária: falta de manutenção do prédio
  • Profissionais fazem “vaquinha” para comprar medicamentos, demais produtos e manter a estrutura do prédio
  • Proliferação de pombos e outros animais, aumentando o risco de contaminação
  • Infiltrações
  • Não há controle de pragas
  • Lençóis descartáveis são reutilizados
  • Armazenamento irregular de medicamentos e materiais cirúrgicos
  • Bebedouro sem funcionamento
  • Falta de locais adequado para descanso e alimentação precária para os médicos
  • Falta de lâmpadas, material de escritório, lençol descartável, produtos para limpeza, reagentes para exames

 Cais Abadia Lopes da Fonseca

Falta de higiene e condições de trabalho adequadas são apenas alguns dos problemas relatados no CAIS Abadia Lopes

  • Atendimento emergencial 24 horas. O ambulatório dispõe de enfermagem, assistência social, farmacêutica, odontológica e das especialidades médicas: clínica-geral, reumatologia, dermatologia, gastroenterologia, endocrinologia, nefrologia, pediatria e ortopedia. A estrutura emergencial com dois boxes de reanimação; 10 leitos de observação adultos e cinco leitos de observação pediátricos; duas salas de curativo; uma central de esterilização de material; uma sala de coleta de exame; uma sala para aerossol e outra para aplicação de medicamentos injetáveis. No pronto atendimento, a unidade dispõe de dois médicos com especialidade em clínica-geral e de um pediatra em tempo integral, auxiliados por equipe de enfermagem. Exames são realizados em caráter de urgência, como os laboratoriais, eletrocardiogramas e raios-X.
  • Recém-reformado (2013), unidade apresenta ainda falta de escoamento da água da chuva, que cai dentro dos jardins de inverno e promove a infiltração, ampliando a possibilidade de infecções
  • Porta de entrada do pronto socorro com defeito
  • Falta de controle de insetos
  • Banheiros insalubres
  • Falta de equipamentos para socorro cardíaco; equipamentos para medição da pressão arterial infantil, oxímetro e demais itens com defeitos
  • Falta de água para injeção e insumos
  • Acondicionamento irregular de medicamentos
  • Estocagem e manuseio de medicamentos irregular e falta de remédios, inclusive cardíacos
  • Falta de lençol descartável, lâmpadas, material de escritório, produtos para limpeza e papel higiênico
  • Triagem deficiente
  • Falta de condições de trabalho, descanso e de privacidade dos médicos
  • Alimentação precária dos profissionais de saúde

Hospital Municipal Jamel Cecílio

Hospital Municipal tem a presença de pombos, ratos, baratas e outros insetos

  • Ampliado e reformado em julho de 2010
  • Problemas estruturais, como vazamentos, infiltrações, limpeza deficiente, falta de equipamentos
  • Atendimento de urgência e emergência em ortopedia, cirurgia, queimaduras e acidentes de trabalho e com animais peçonhentos
  • Estrutura comprometida do atendimento nas áreas de cirurgia geral, ortopedia e oftalmologia
  • Infiltrações
  • Ar condicionados sem manutenção podem comprometer saúde de pacientes e servidores
  • Presença de pombos, ratos, baratas e outros insetos
  • Falta de limpeza e banheiros inadequados
  • Equipamento para limpeza dos olhos em local inadequado
  • Falta de materiais reagentes para exames e de medicações
  • Lixeiras sem tampa
  • Condições de trabalho, alimentação e descanso dos médicos inadequados

Unidade de Pronto Atendimento – UPA 24 horas

  • Atendimento 24 horas da região Centro-Oeste. A estrutura é composta por recepção, farmácia, sete consultórios médicos e um odontológico, salas de procedimentos – sutura, curativo, medicação, raio-x e eletrocardiograma -, e laboratório de análises clínicas. São 18 leitos de observação (masculino, feminino e infantil), dois leitos de isolamento, sala de urgência com quatro boxes de reanimação, salas de espera para acompanhantes.
  • Infiltrações e falta de manutenção de equipamentos
  • Iluminação e acesso inadequados no local
  • Coletor de resíduos perfurocortantes improvisado, com risco de contaminação
  • Improvisação de coletor de urina
  • Falta de reagentes para exames por falta de reagentes, como o CKMB (usado no diagnóstico diferenciado de dor torácica e seguimento e prognóstico de paciente com infarto agudo do miocárdio)
  • Falta de condições de trabalho, alimentação, local de descanso e privacidade dos médicos

Sem explicação

Por diversas vezes, a reportagem de A Voz de Anápolis tentou entrevistar a Secretária de Saúde, Luzia Cordeiro. Em uma última justificativa, por mensagem, a assessoria de imprensa da Secretaria informou que Luzia estava “cumprindo agendas importantes para a Saúde”. “Iremos ficar para uma próxima, tudo bem?”, encerra a mensagem.

 

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