Tânia Valeriano: “A municipalização da Água traria prejuízo à população”

Novamente, a engenheira civil Tânia Valeriano Pereira – anapolina e gerente da Saneago em Anápolis desde 2008 – é a entrevistada especial do Jornal A Voz de Anápolis. Desta vez, ela faz um comparativo do último período de estiagem em relação aos anos anteriores no município, detalha o estágio do plano de saneamento da cidade em execução desde 2009 e ainda discrimina as providências que serão tomadas após autorização do Governo de Goiás para investimentos de R$ 118 milhões por parte da Saneago em Anápolis nos próximos seis anos, equivalentes ao encerramento da concessão que vence no ano de 2023. Ela ainda fala sobre o tema da municipalização água, bastante discutido como proposta de campanha do prefeito eleito Roberto Naves e responde a pergunta mais importante para os anapolinos: vai faltar água em Anápolis nos meses de agosto, setembro e outubro de 2017? Acompanhe.

Tânia Valeriano, gerente da Saneago em Anápolis

A Voz de Anápolis – Num comparativo a anos anteriores, como você avalia o ano de 2016 em relação à falta d’água em Anápolis?

Tânia Valeriano – O ano de 2016 foi melhor que os anos anteriores. Prova disso foi que tivemos somente três ocorrências de falta d’água mais prolongadas no período de estiagem e todas elas foram ocasionadas por conta da falta de energia elétrica. Esse ano a melhoria para o abastecimento deveu-se a dois fatores principais. O primeiro a primeira etapa das obras de ampliação foi concluída e permitiu que o sistema atenda, com tranquilidade, a demanda da cidade pelos próximos cinco, seis anos, sem problemas. O problema de 2015 foi a falta d’água no próprio manancial que foi gravíssima em decorrência da degradação ambiental, por conta do uso desenfreado, absurdo até, de alguns usuários da bacia, a exemplo dos irrigantes e por conta do próprio fator climático que também contribuiu para a situação da época. Já em 2016, houve um trabalho conjunto com os irrigantes sob supervisão do Ministério Público, Emater e outros parceiros. Foi nesta hora que os irrigantes nos respaldaram diminuindo a captação desordenada. Em dias de alto consumo, sábado, por exemplo, nossas equipes chegavam a ir nos irrigantes das grandes propriedades e pedir que colaborassem com a Saneago e eles atendiam nossas orientações. Isso foi fundamental. Em 2017 a gente vai ter a outorga coletiva pela Secima na qual todos os usuários da bacia vão poder saber qual vasão poderá captar do manancial, vamos ter mais segurança. Quanto ao sistema, algumas medidas paliativas foram tomadas já no ano de 2016 pela melhoria na captação do Piancó 2, na confluência com o Anicuns, tanto que, praticamente, durante o período de forte estiagem: setembro e outubro, 80% da vasão captada veio do Piancó 2. Agora, pra 2017, vamos ampliar melhorias para que elas possam garantir a continuidade do abastecimento para esse ano que se inicia.

A Voz de Anápolis – Então da parte da Saneago, da estrutura da estatal na cidade, não houve falha para ter havido falta d’água? Foram somente estes fatores externos?

Tânia Valeriano – Exatamente. A vasão captada é suficiente para atender a cidade. Nesse período, até os próximos seis anos, é suficiente. Nós tivemos essa baixa de vasão grotesca. Anápolis tem enfrentado problemas por falta d’água e ao longo do tempo um somatório de situações agravou a situação. Só em 2001, por exemplo, foi quando entrou em funcionamento a atual estação elevatória, abandonando a antiga da década de 1970. Então, porque continuaram os problemas no período de estiagem? Porque nunca se atacou a causa. Infelizmente, até fatores políticos influenciaram, no caso, de não se mexer com os produtores que usam da irrigação e essa discussão nunca era levada adiante. Mas a intenção não é a de expulsar ninguém da bacia, mas sim de conciliar o uso para que o sistema não seja interferido e isso, agora, realmente está acontecendo.

A Voz de Anápolis – Existe um plano de saneamento em execução. Qual o estágio dele, hoje, entre obras concluídas, em realização e obras previstas?

Tânia Valeriano – O projeto de ampliação do sistema que foi feito com base nesse plano de saneamento teve sua primeira etapa concluída em 2014 com os centros de reservação, adutoras de água bruta ou tratada que foram ampliadas ou construídas e algumas melhorias nas captações. A segunda etapa era pra ser concluída neste ano se os recursos previstos lá em 2009 tivessem chegado. À época, foi assinado um convênio no qual o valor total da obra era de R$ 104 milhões e a Prefeitura tomaria um empréstimo de R$ 63 milhões a ser pago pela Saneago, só que esse empréstimo não aconteceu. Nisto, a Saneago iniciou essas obras com recursos próprios aguardando que outros recursos fossem destinados. Mas obras com recursos próprios oneram muito o caixa da empresa. No caso de financiamento, você tem esse embolso diluído em vários meses e como ele não aconteceu, essa segunda etapa ficou no aguardo desses recursos. Nessa situação, em 2014 e 2015, buscamos tomar empréstimo junto ao BNDES ou pegar recursos do FGTS, mas nenhum deles foram viabilizados, por isso que essas obras não foram concluídas.

Mas agora, nessa última reunião do dia 6, foi discutido o fator preponderante e que foi garantido pelo governador com a liberação destes R$ 118 milhões. Agora, além da conclusão dessa segunda etapa da ampliação, também uma nova captação será consolidada no Capivari. Uma provisória a funcionar já no próximo ano e uma definitiva a se consolidar nos próximos anos. Desse modo, com esses R$ 118 milhões, dos quais R$ 15 milhões serão aplicados já em 2017, e o restante nos cinco anos subsequentes, a Saneago vai garantir que essas obras sejam concluídas.

Só para esclarecer o questionamento das pessoas de não ter sido pego esse empréstimo antes, no próprio nome da Saneago, como agora, também, tem algumas dificuldades, é pelo seguinte: qualquer agente financiador tem que ter garantias de quem está captando o empréstimo, eles querem saber se o agente tomador terá condições de pagar a despesa. No caso de Anápolis, a concessão vence em 2023 e os financiadores questionam quem vai pagar a conta além disso. Por isso que em Goiânia já está sendo discutida a ampliação do contrato, pois é um fator que implica diretamente na captação de recursos para melhorias na infraestrutura da rede naquela cidade.

A Voz de Anápolis – O anúncio dos investimentos de R$ 118 milhões da Saneago coincide com a posse do novo prefeito que debateu incisivamente a municipalização da água. Esta reação vem para minar essa intenção do prefeito?

Tânia Valeriano – Eu tive oportunidade de conversar com o prefeito Roberto Naves antes, durante e após esta reunião. Ele foi bem claro me dizendo que estava aguardando realmente esse encontro e que ele seria decisivo porque, se não houvesse o apontamento de uma solução concreta para a continuidade dessas obras, ele tomaria, a partir da segunda-feira seguinte, a decisão de iniciar o processo quer seja de municipalização ou de uma solução por conta do município. Felizmente, a empresa e o governo do estado já estavam cientes dessa que é uma necessidade real da cidade, não vamos falar que é para atender esse ou aquele interesse não. O governador pediu um prazo de 30 dias para estabelecer a metodologia e o cronograma de desembolso. De onde virá, de fato, os investimentos. Se parte da Saneago, se parte de financiamentos, se parte do tesouro do estado. Então, nesse próximo mês, isso vai ser organizado e eu tenho esperança que isso não fique somente no discurso político e que seja concretizado por realmente conhecer a necessidade de Anápolis. Diante da conclusão dessas obras, não faria sentido municipalizar o serviço. Eu me lembro até de uma frase que eu usei antes mesmo das eleições, após as eleições e depois da posse do prefeito: não adianta querer inventar a roda. Se você tem uma roda ‘rodando’ e que precisa de melhorias, é melhor fazer as melhorias necessárias nessa que já está ‘rodando’ porque tem se menos prejuízo. Sem sombra de dúvida e eu creio que o prefeito sabe bem disso, num processo de municipalização da água para Anápolis, quem tomaria prejuízo seria a população. Porque você pegaria um sistema que precisa de melhorias e a Prefeitura teria uma dificuldade imensa para se estruturar de imediato. Se a municipalização ocorre, o ente tem que se estruturar de imediato. No caso do rompimento do contrato em Anápolis, a Prefeitura absorveria somente o sistema. Só aquilo que é sistema operacional. E a estrutura para dar suporte a isso? Desde viaturas, equipamentos, porque isso não está ligado ao sistema, isso é patrimônio da Saneago. Então, a Prefeitura, realmente, teria dificuldades mesmo com um ente privado. Esse lapso de tempo para se estruturar traria um grande prejuízo para a população e o prefeito sabe disso.

A Voz de Anápolis – Está sepultado o tema da municipalização da água em Anápolis desta forma?

Tânia Valeriano – Ainda não. Com certeza, não havendo o cumprimento do que foi acordado recentemente pelo governador, sem sombra de dúvida, até pelo o que foi falado na oportunidade, o prefeito disse que vai tomar as providências quer seja para municipalizar, quer seja outra solução para o problema da água.

A Voz de Anápolis – Caso ocorra a municipalização, para a Saneago e para o Estado seria uma perda considerável de recursos?

Tânia Valeriano – Em partes. Se caso perdêssemos essa receita, evitaríamos despesas. Porque deixaríamos de operar um sistema grande, pesado e que agora está precisando de severos investimentos. Nesse caso, a Saneago deixaria de investir, também. Essa questão do equilíbrio econômico é realmente muito complexa. O que o prefeito Roberto deixou bem claro também é que não seria problema a continuidade da Saneago em Anápolis com subsídio cruzado, desde que todas as necessidades de Anápolis fossem supridas. Acho que essa é a visão de todos os municípios.

A Voz de Anápolis – Vai faltar água em agosto, setembro e outubro?

Tânia Valeriano – A expectativa é que não. Essas melhorias que foram feitas nesse ano de 2016 vão se tornar definitivas e outras serão feitas na captação do Piancó 2 para que seja garantida essa capacidade de sustentar a vasão. Outro fator que vai fazer a diferença é em relação à recuperação ambiental. Identificamos nascentes que até secaram por conta do pisoteio do gado em suas proximidades em 2015 e, só pelo fato de cercar estas áreas, já vimos diferença. Com essa recuperação ambiental e com essa parceria com os produtores que estão mais conscientes da importância do papel deles, estamos esperançosos. Mesmo se a Saneago deixasse de captar água do Piancó, se não houver esse trabalho ambiental, eles também ficariam sem água. Essa conscientização é magnífica e a gente aposta que não teremos problemas de falta d’água em 2017.

Notícias Relacionadas