Festa no velório

Fazer jornalismo em Anápolis é ter em mente que nem tudo o que é pode ser publicado e nem tudo que é publicado realmente é. Explico. Como diria minha professora de jornalismo, querida Silvana Coleta: Se eu passo por uma rua e um cachorro me morde, isto não vira notícia facilmente, a não ser que eu tenha um braço arrancado, uma ferida profunda na barriga ou que meu nariz seja arrancado por causa da mordida.

E se eu mordesse o cachorro? Ah, se eu mordesse o cachorro, mesmo que brincando, seria exposto na hora em jornais, rádios, canais de televisão, blogs e minha foto circularia em todos as páginas de Facebook de Anápolis. Mas alto lá! O que tem mais relevância social e acontece mais? Mordidas de cachorro em gente ou de gente em cachorro? Acredito que a primeira opção.

Acontece que em Anápolis, a maioria das pessoas, talvez não por sua própria culpa, tenha a tendência de prestar mais atenção no espetacular, naquilo que chama mais atenção, do que necessariamente nos aspectos sociais relevantes das notícias veiculadas. É o caso de um secretário, ou um prefeito, ou um vereador que fala besteira pensando que não tem ninguém por perto ouvindo. E aí acontece de publicarem aquilo que disse. Fica raivoso como cachorro que acabou de ser mordido.

O que ocorre é que nós, população, somos mordidos o tempo todo por cães vorazes que buscam nos retirar o direito de questionar, falar abertamente sobre problemas que afligem a sociedade. Eles, cachorros mordidos, não viram notícia quando aprovam leis que prejudicam o povo, seu eleitor. Eles não viram notícia quando, todos os dias, sobem à tribuna para expor sua falta de conhecimento político e para apresentar projetos que não teriam relevância nem se apresentados em reunião de condomínio.

Tem muita gente que prefere esconder a notícia relevante para mostrar apenas o lado florido do mundo, como se a sociedade não precisasse ser transformada a partir do questionamento. Tenho uma tia que certa vez, em um velório de um parente, afirmou para a família do morto que ele só poderia ser enterrado se houvesse uma refeição para reunir familiares e amigos. Isso para garantir que a alma dele fosse despachada. Ou faziam a refeição ou a alma do defunto iria ficar pela terra zanzando sem rumo.

A notícia é o defunto. Não estou aqui defendendo que a família deveria ter aceito a proposta da minha tia. Digo apenas que muitas vezes, por causa de uma simples refeição, deixamos a notícia perambulando por aí, sem ser publicada, velada e, claro, enterrada. Um assunto só é concluído quando ele vem à tona, ao jogarmos luz sobre ele, e as medidas necessárias são tomadas.

Em 2015, quando eu escrevia para outro jornal de Anápolis, redigi uma matéria denunciando que o governo do estado havia demitido catorze professores do Colégio Estadual Zeca Batista. Ora, nesta instituição estudam aproximadamente 20 alunos autistas e outros com diversas deficiências mentais.

A matéria foi publicada, o jornal impresso foi parar na mão da secretária Raquel Teixeira e ela, vendo a repercussão do fato, atuou junto ao governador para a volta dos professores. E foi o que ocorreu nos dias subsequentes, para o bem daqueles alunos. O Jornalismo em Anápolis ainda precisa ser o que ele nasceu para ser: um produtor de conhecimento na forma de notícias, para o bem da população. Sem máscaras, dilemas ou deturpações.

O bom e velho texto jornalístico, bem apurado, doa a quem doer, deve ser a premissa de todos os profissionais da imprensa. Chegou a hora de fazermos uma bela refeição e deixamos o defunto da notícia ir embora, publicado nas páginas de um jornal, rádio, TV, site ou blog qualquer. Somente assim, libertos do medo e da censura impregnada, deixaremos de virar motivo de escárnio quando decidirmos morder um dos cachorros que nos perseguem.

Felipe Homsi é Jornalista Repórter do Jornal A Voz de Anápolis, microempreendedor individual e assessor de comunicação da UniEVANGÉLICA
hbfcomunicacao@gmail.com

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